sábado, 12 de março de 2011

As dores do Mundo

Por André Andrade


Meu olhar andarilho esbarra-se nas esquinas
Encontra pessoas acomodadas no chão e sob o teto estelar
Um olhar que caminha transpondo o que se vê
Mas não deixa de olhar para trás e se perguntar por quê?

Um palhaço sobe no ônibus e clama atenção
E com um sorriso forçado nos conta sua tristeza
Triste criatura que depende da caridade alheia
A pervesidade do acaso lhe impôs esta condição

As vezes, dá um aperto no coração
De pensar no infortúnio das pessoas
Do sofrimento diário, dessa esperança libertina
Que já não esconde o futuro sem novidade

Por vezes, há de endurecer o frágil coração
Para que não nos desesperemos
Diante desta situação que suga a lucidez ao fundo
Fundo de chão rachado, sertão no mundo

A terra de gente seca invoca aos céus
Por respostas de porque não ter o que comer
A ponto de retirar-se do solo batido
E encarar o asfalto áspero com os pés carcomidos

Um rapaz pede ajuda, uma intera para a graxa
Fazer brilhar os pés do cliente, curvar-se à vaidade
Para juntar dinheiro, e comprar uma sandália
Anda a cidade toda, fugindo da miséria
Que faz ponto nas esquinas
Ignorando a arrogância dos viventes
Perseguindo sem tréguas os que teima em sobreviver

Um pequenino a guiar um cego pede licença
Educado menino que demonstra a feitura das pessoas
Seres movidos por vaidade, repulsiva vaidade
Que só a terra há de aceitar sem regugitar.

Meu eu-lírico digladia-se com meu eu-mundo
Por que tem sido assim?
Por que Eros prevaleceu
E o Ágape empalideceu?

Essas dores errantes, atravessando nossos olhos
A todos instantes, perâmbulos afoitos
Sem achar a razão dessa situação dilacerante.

quinta-feira, 10 de março de 2011

De quem foi a culpa? Ah, foi do Carnaval.


 Por André Andrade


Sei que foi bom, que já passou, mas ainda estamos em tempo de falar do carnaval, e não, eu não pulei carnaval. Na verdade não é sobre carnaval que quero falar, quero falar de uma coisa que foi muito intensa nesse primeiro bimestre, e que traz como conseqüência o carnaval. Primeiro, vamos aos fatos.
No início do ano todos nós acompanhamos a tragédia na região serrana do Rio de Janeiro devido a uma grande incidência das chuvas em um curto período de tempo. Tal catástrofe provocou deslizamentos de terra, inundações e outros transtornos que ceifou a vida de centena de cariocas. Todo o mundo acompanhou aos fatos chocados com as notícias que abriram o ano contrariando nossos pedidos de esperanças e felicidades para todos.
As explicações acerca das catástrofes da natureza não tem boa aceitação para boa parte da razão popular. Todavia, o que me assustou foi o fato de ter imputado a causa desta tragédia ao carnaval, sendo que faltava ainda cerca de um mês e meio para as festividades começarem. Não sou carnavalesco, tenho pavor de multidão e não estou defendendo, muito menos se desfazendo do mesmo, mas essa conexão que as pessoas fazem entre fenômenos naturais e festas profanas e castigo do sagrado é uma construção mental muito curiosa.
Essa curiosidade no Brasil se torna singular por causa das enchentes no sul/sudeste que ocorrem sempre em fim e início de ano. Geralmente, é São Paulo que se destaca nesse quesito. As cidades paulistanas nunca estão preparadas para as chuvas de verão que cuja pluviosidade todo ano é constante nos mesmo meses, ou seja, tem-se bem formada a idéia de quando vai chover muito e provocar todos os transtornos que vamos continuar a ver enquanto o PSDB não tomar medidas drásticas no cenário paulistano. Curioso é que isso acontece no período que se aproxima do carnaval, o que “justifica” a equação pensada pelo senso comum: carnaval = tragédia.
Somam-se a esses fenômenos os incêndios ocorridos na cidade do samba que destruiu boa parte do material de algumas escolas de samba. O clímax disto tudo foi o caso do trio que recebeu uma descarga que matou cerca de 15 pessoas no momento que o bloco de pré-carnaval fazia a folia das pessoas em Minas Gerais. Além disso, temos os fenômenos secundários que aumentam nesse período como os acidentes nas rodovias, e que o povo teima a justificar: - é culpa do carnaval.
Engraçado, na Austrália tem carnaval? Não sei. Digamos que sim, e perceberemos que a lógica popular não bate: lá teve enchentes provocadas pelas chuvas concomitante às do Rio. Digamos que não, e a lógica mesmo assim não engrena: lá morreram dezenas, e não centenas como aqui.
Então, o que acontece é muito intrigante: as pessoas estão deixando de pedir justificativa ao poder público, e culpando o carnaval. Mais do que isso, se renderam a esta culpa.
Sei que não se pode evitar as fatalidades, mas as explicações sobrenaturais estão invadindo nossas vidas de tal forma que penso diante da iminência de uma nova idade média, e mais forte (ideologicamente) do que nunca.
Em Itabuna, acabaram com o carnaval, só não conseguem acabar com o aumento da violência, de usuários de crack. Itabuna hoje é uma das cidades mais violentas do Brasil. Por isso digo que estamos num período que as instituições sociais políticas estão absorvendo ideologias religiosas de grande alienação, misturando tudo de novo. Tudo o que não agradar aos olhos da divindade tem de ser extirpado, e se não obedecer, recairá um castigo sobre aqueles que não seguirem as normas.
Isso é uma justificativa muito apelativa. Ante a tragédia, o horror, a perda de entes queridos, o choque que tudo isso causa nos tornam sensíveis a ponto de qualquer conforto que ser oferecido ao ser humano ser absorvida sem questionamento. Estão sedentos por alguma coisa que os acomodem, que tragam de volta à racionalidade. E quem só assiste a esses eventos, essas catástrofes? Também se angustiam, se desesperam, se sentem incomodadas com a situação, mesmo que tenha acontecido a quilômetros de distância. Por isso, tentam criar uma capa de proteção, algum instrumento que isolem de todas as assolações porque o fato de ter acontecido em outro lugar não impede que aconteça em outra localidade. E procurar uma capa é procurar um culpado, e achando um culpado, atenua-se a culpa.
O carnaval é um período de festividades em que a maioria das pessoas tomam a libertinagem por preceito. Diversão e Lazer é a lei, é claro, com dinheiro no bolso. Como disse, não gosto do carnaval, e, portanto, não posso dizer mais do que se encontra no imaginário popular. É uma festa profana, secular, onde se encontra todos os prazeres carnais para todos os gostos. A festa tem todas as características para ser tomada como culpada de provocar a ira e/ou tristeza divina e conceder e/ou promover os castigos sobre os homens.
Vivemos em tempos de difíceis entendimentos, no qual a emoção se sobrepõe à razão. Há uma angústia social provocada pela incerteza futura. Nunca o ser humano se sentiu tão angustiado quanto a futuro. A selva está crescendo e os seres humanos estão voltando a serem os lobos de seus próximos. Simplesmente, desistiram de contestar, jogaram a toalha branca, e estão deixando para a justiça divina a resolução das coisas terrenas. Os mais velhos tem nostalgia dos tempos de outrora, por isso, percebe-se que são esses os que mais culpam o carnaval pelas transformações dos tempos. Os mais jovens estão cerceados por esta nostalgia. Entre os mortos e os insensatos, soçobram os atônitos que não querem achar culpados, mas entender porque as pessoas deixaram de construir o futuro na tentativa de viver intensamente o presente e amenizar o impacto dos momentos vindouros. Incertezas. Culpemos tudo, só não culpemos a ganância humana.

sábado, 5 de março de 2011

DESARMADO

Por Humberto Rodrigo

  "Panoptiqueiros" de plantão: o post dessa semana será um pouco diferente. Carnaval aí bombando e nada mais normal que uma análise socio-político dessa festa que hoje, é a maior do mundo. Refletindo sobre a folia (que para muitos é como a virada de ano, afinal no Brasil o ano começa após o carnaval) deparei-me com o vídeo de uma jornalista paraibana e fiquei "desarmado". Eu, muito provavelmente, não encontraria palavras melhores para expressar com tanta maestria o que o carnaval, DITA festa democrática, se tornou. Depois de assistí-lo vi que melhor que dissertar seria postá-lo. Sem mais delongas, o post dessa semana vai com os crédito para a Jornalista Raquel Sheherazade:

  

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Elogio da Bizarrice



 Por André Andrade

Não quero imitar o Erasmo de Roterdã, e muito menos incitar-se em seu sarcasmo e ironia presente em sua obra, O Elogio da Loucura. Pretendo direcionar os mais verdadeiros elogios às bizarrices que costumamos encontrar em nosso cotidiano. O fato é: por que o povo passou a dar valor a músicas que não tem nenhum sentido (aprioristicamente falando)? Dito isto, não quero levar em consideração a música em seu estilo, mas em seu conteúdo, e o que está em voga não é bem a música em si, mas o valor depositado a elas. Todo caos tem sua ordem, se compreendida, então não podemos olhar esses eventos de forma depreciativa, como eu mesmo já fiz, confesso, chegando a dizer que tais aberrações são desprovidas de significância. Retificarei meu erro.
                As cosmologias das classes desfavorecidas nos dão dados que justificam a valorização de músicas depravadas, sem sentido, sem letra, contudo, relevantes quando interligadas à vida que a pobreza os relegam. De fato, observamos um aumento considerável destes gêneros musicais, mas aí não podemos deixar de entrever interesses mercantis que exploram essas formas de lazer que essas classes degustam. Nesse sentido, não quero dizer que a pobreza condiciona as pessoas a cultuar músicas “bizarras”, mas que sua baixa condição econômica restringe seu universo fazendo com que tendenciosamente, passem a criar gosto por esses tipos de músicas, o que não impede de criar outros gostos, o que dependerá de influências de outras pessoas e outros fatores infinitamente apontáveis.
                O que se passa é que a grande maioria dessas pessoas que “curtem” músicas bizarras são pessoas que não puderam dar prosseguimento em seus estudos, tem ritmo de trabalho bastante intenso, quando não, trabalham informalmente, são subempregados e tem sempre de estar a “dar duro” para que não falte comida em casa. Nesse contexto, o lazer desses estão resumidas ao sexo, televisão, música e cerveja, de maneira geral. Ouvi no ônibus de um senhor que “a única coisa que o rico não tirou do pobre foi fazer menino”. É claro que o senhor citado se refere ao prazer libidinoso que o sexo lhe permite, sendo uma conseqüência nada agradável o “menino” a que ele se refere. A falta de instruções, como diversos benefícios gratuitos que se encontram nos postos de saúde para que se evite uma gravidez não planejada levam os mais pobres a praticar sexo de forma descuidada, aumentando as dificuldades com o aumento da família.
                Quero deixar bem claro que tudo isso são especulações. Não há comprovações científicas para tais deduções. No entanto, essas observações não são infundadas. Ensinei numa modalidade de ensino em que 98% das mulheres, num universo de 110, na faixa etária de 18 a 29 anos, deixaram a escola por gravidez indesejada. Digo indesejada porque não faziam parte dos planos da maioria engravidar ao iniciarem (precocemente) a vida sexual ativa. Dessas, 90% tem dois ou mais filhos e tiveram os mesmos na adolescência. Quanto aos homens, nessa mesma modalidade de ensino, 90% deles deixaram o colégio para trabalhar e sustentar mulher e filho, tendo os outros de deixarem de estudar por necessidades que já vivenciavam. A maioria desses também tiveram filhos na fase da adolescência.
                Trago esses dados não só para mostrar que se faz necessário uma política educacional de orientação sexual por parte das escolas e quebrar esse tabu de não falar de sexo para os adolescentes, haja vista que as conseqüências são mais graves. Com isso, quero justamente falar dessas conseqüências: a formação da típica família de baixa renda. Sem o alicerce da educação, comprometidos com a família, os pais estão agora condicionados a uma vivência derradeira, isso para não falar da excessiva incidência de pais que abandonam suas crias. Ora, qual é a ligação do gosto por músicas bizarras e condição de pobreza em que estão inseridas essas típicas famílias? O lazer lhes foi tolhido. As precárias condições econômicas lhes permitem a ter acesso a cd’s/dvd’s piratas, a shows de 5,00 a 10,00 reais, a cerveja mais barata, a TV aberta, ao sexo cuja dependência se encontra somente na convenção dos parceiros. Todo o universo dos grupos sociais desfavorecidos está condicionado ao cerco que sua condição econômica lhes permite.
Nessa perspectiva, há de se fazer um esforço incondicional de compreender porque as pessoas de classe baixa não dão importância a MPB, Bossa Nova, o Rock questionador, a Chico Buarque, Tom Jobim dentre muitos outros. Lhes faltam cultura? A essa pergunta, dedico-lhe um veemente NÃO. Se disséssemos sim, então colocaríamos o termo cultura em íntima relação com a condição econômica, já que quem tem acesso a essa cultura são as classes mais favorecidas. Então estou querendo dizer que as músicas bizarras são culturais? Sim, pois, se as mesmas são desprovidas de sentido, as classes desfavorecidas lhes outorgam uma significância, a saber, o lazer!
                Diante de tantas dificuldades, privações, intempéries que uma vida de apertadas condições financeiras passa, as músicas que lhes são divertidas, de ritmos alegres, cujas letras, em sua maioria, falam de amor mesclado com sexo, quando não totalmente depravadas ou sem letras mesmo, formam, imbricadas com o sexo, cerveja e televisão, a conjuntura que fundam a coesão social das camadas mais pobres.
O senso comum dispensa letras críticas e criativas para valorizar as poesias libidinosas, em que a bebida, contos e tragédias amorosas somados a uma batida musical no qual requebram-se os quadris são elementos categoriais presentes nas aqui chamadas músicas bizarras a qual satisfazem os desejos momentâneos e a baixo custo. Tal dispensa não permite dizer que a classe pobre não tem cultura, pois o que não se tem são costumes provenientes de outra esfera econômica. Tudo bem que o que nos irrita e faz com que não reflitamos acerca do assunto é o fato de em toda lugar encontrarmos essas músicas sendo tocadas, não precisando nem sair de casa pra ter contato com as mesmas. Toda essa constância é realmente irritante, mas como diria o velho Durkheim, não deixe que tudo isso suba à cabeça, fazendo com isso um hercúleo esforço de compreender a pertinência de tais fatos em nosso meio. Todavia, dizer que isso não é cultura é um preconceito, porque isso é uma construção coletiva humana em que se procura fundamentar a existência com o que se tem.
Certo. Então, deixo esclarecer alguns pontos obscuros desta breve reflexão. 1°- Chamo de Músicas Bizarras músicas que em geral não tem nenhum intuito de criticidade e muito no quesito diversão, descontração, curtição etc. 2°- Muitos devem estar se perguntado, - Sim André, muito bonito o seu argumento, mas como fica a questão de pessoas de outras camadas sociais curtirem a música bizarras, como os estudantes universitários, que em sua maior parte provém de uma classe média. Ora minha gente, estamos falando de cultura, uma categoria que é carregada de dinamismo, interação, e não uma coisa estanque. E mesmo assim, hipoteticamente falando, se questionarmos boa parte de pessoas dessa classe, perceberemos que muitos ouvem ou já ouviram músicas de outro tipo que não as bizarras. E se curtem este tipo de música, curtem pelo mesmo motivo dos mais pobres, lazer, e que vão em busca da azaração, já que em festas com músicas bizarras sempre se avolumam pessoas com o mesma motivação já citadas aqui. E isso é uma prova de que a cultura dos mais pobres tem uma grande significância a ponto de atrair pessoas de outras estirpes econômicas e sociais. 4°- Não quero estar aqui estereotipando nenhum conjunto social, pois, como já havia dito, não são fenômenos estanques, estando sempre em devir. Meu intuito é quebrar com essa idéia de que tal coisa é cultural e tal não é, polêmica que não se esgotaria em um texto. 5°- e por último, não deixemos de entrever nas ações os interesses econômicos. Se só toca esses tipos de músicas nos bares, na rádio, na TV, é porque tem de atrair pessoas para consumirem cerveja e darem audiência. Tem uma música que prova que estou com alguma razão quanto toda esta minha ladainha, a da banda Psirico, chamada firme e forte. Opinião minha, uma das melhores músicas elaborada por um grupo musical baiano, pois fala de uma realidade de pobreza, fé e esperança, realidade esta totalmente consonante com a vida de grande parte das pessoas de baixa renda. No entanto, a música não repercutiu grande sucesso, aliás, somente parte da música fez sucesso, a parte do refrão que diz: Êee chuá chuá, ê chuá chuá.

Tchubirabirom pra tod@s!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Foucault no Oriente Médio



Por Humberto Rodrigo

O quê os recentes acontecimentos no Oriente Médio e Michel Foucault têm em comum? Na leitura de A Ordem do Discurso, dentre outras coisas, Foucault trata do discurso e do poder que vem inerente a ele. Quem tem o “direito” de discursar? Para ter esse direito é necessário ser versado em técnica. Na Tunísia (onde a série de movimentos contra os governos “déspotas” tiveram início) um feirante ateou fogo ao próprio corpo. A idéia deste texto é co-relacionar esses dois eventos.
Na Grécia antiga o direito de discurso era dado a todo cidadão ateniense: nas grandes assembleias aberta ao público, todos os cidadãos tinham direito a voz. Um direito que era equitativo à todos, entretanto aí já se nota um esboço do binômio discurso\poder, uma vez que como o discurso era destinado aos cidadãos, aos que estavam fora dessa casta nada restava a não ser seguir o que fora imposto. A partir da Roma antiga, e mais ainda da idade Média, a relação entre discurso e poder cada vez mais foi se intensificando: em Roma com o imperador, nos feudos com a Igreja detentora da “verdade” incontestável, na modernidade com o discurso burguês. Hoje na pós-modernidade (em breve texto sobre que diabos é isso de pós-modernidade) o discurso ganhou forma e técnicas apropriadas: tem que ser metricamente fluente, obedecer regras, embasado teoricamente... Mas essa influência não é de agora vem de longa data: desde o século XVI com René Descartes. No entanto, desde Descartes, e mais ainda com o surgimento das universidades, a tendência foi cada vez mais o discurso se transformar em uma arte dotada de técnica que deve ser milimetricamente seguida. O que Foucault chama atenção é que o discurso quanto mais técnico menos acessível ele se torna: o discurso é diferenciador e localizador. Ele diz tanto quem você é, quanto de onde veio. Ora o discurso de um catedrático é radicalmente diferente de um vendedor de sapatos, por exemplo. Assim como, pelo discurso dos dois é possível localizar o extrato o social que cada um pertence. Foucault não fala dos extratos sociais, pelo menos não diretamente, mas deixa um paralelo bastante pertinente ao falar daquelas que ele chamou de “sociedades do discursos”, que nada mais eram que grupos que detinham certo método específico em recitar poemas. Embora a intenção seja de recitar o poema, o conhecimento da técnica era guardado a fio, destinado a uns poucos. Há um papel extremamente delimitado entre aquele que fala e o que escuta, papel esse que não pode ser trocado jamais. E é verdade, olhem a nossa sociedade: quem discursa usa terno e gravata, quem escuta usa, quiçá, “jeans e tênis”. E o interessante é que nesse caso não é “a verdade” que está em jogo e sim o método, o poder de convencimento, seja ele pela eloquência e retórica ou, seja pela força bruta. E o grande exemplo disso é Galileu Galilei ao mostrar que a Terra não era o centro do universo, entretanto, fora obrigado a se retratar publicamente porque o discurso (e com isso o poder) era ditado pela Igreja. O que interessava não era a verdade em si, mas a ratificação e a subserviência àquilo que se pregava na época. Palavras bonitas valem mais do que verdades perfeitas. Essa disparidade abismática entre esses dois sub-extratos (o que fala e o que ouve) é dificilmente transponível, mantendo certa estabilidade com o passar dos tempos.
Nos últimos dois meses temos visto uma verdadeira revolução no Oriente Médio. Tunísia, Egito, Jordânia... Vários países estão se rebelando contra os regimes autoritários e anti-democráticos. Mas você sabe como se deu início isso tudo? Na Tunísia com um feirante que ateou fogo ao corpo. Qual o sub-extrato de um feirante: o que fala ou que ouve? O referido feirante sempre tinha que dar (e por “dar” entendam-se se deixar ser saqueado) parte de sua produção a policias. Por várias vezes reclamou a autoridades do governo e nenhuma atitude fora tomada. Cansado disso ateou fogo ao próprio corpo, para que o seu discurso fosse ouvido. Dias depois faleceu. E dessa atitude vemos a eclosão das revoltas no Oriente Médio. A grande arma dos governos autoritários é exatamente o de concentrar em si a arte – e todo o poder – inerente ao discurso. Quem vai dar ouvidos a um feirante? Qual o sub-extrato de um feirante?
O discurso e a classe social estão intimamente associados. O dinheiro está para o poder, assim como poder está para o discurso. Na verdade o dinheiro até compra o discurso: cada vez mais se o vê o crescimento de assessorias de impressa. Quem tem o poder não fala, paga para que falem por ele. O discurso de quem habitualmente só ouve, só tem valor quando proferido por uma ampla maioria. Mas, como já dizia Pareto, é imensamente difícil mobilizar de forma organizada uma grande massa. Só quando eventos extraordinários (e, geralmente, trágicos como o feirante tunisiano) ocorrem e que há uma mobilização organizada. A Ordem do Discurso (novamente salientando que foi feito um recorte de uma parte específica do livro) foi escrito em 1970, muito do que Foucault chamou atenção está acontecendo hoje, 41 anos depois. O trágico disso tudo é que certamente muitos feirantes ainda atearão fogo ao próprio corpo, para serem "ouvidos".

sábado, 29 de janeiro de 2011

Vigiar ou Punir?




Por Humberto Rodrigo

Como é de conhecimento geral da população, é fato que o sistema carcerário brasileiro está chegando a um estágio de estrangulamento singular. A população carcerária no Brasil gira em torno de 500 mil detentos, sendo que desses, mais da metade é reincidente em delitos. Grupos de direitos humanos reivindicam a melhoria das condições dos internos. Já para a população, quanto pior forem as condições de vida dos presidiários pior para eles, afinal se estão lá é porque de fato merecem estar. Esse embate sucinta a questão a respeito da função social dos presídios: afinal presídio é para ressocializar ou punir?
Celas apertadas, comida de péssima qualidade e tratamento da pior espécie. Essa é a realidade da imensa maioria dos presídios brasileiros. Sob essa condição os grupos de direitos humanos alegam que o detento ao invés de aprender a lição, sai ainda pior do que entrou. O tratamento dado aos condenados (apesar de em teoria sim, na prática) não diferencia o ladrão de supermercado do ladrão de banco: ambos ocupam o mesmo espaço. A falta de uma divisão, que realmente seja efetiva, tende mais para corromper o primeiro do que para redimir segundo. O argumento é que o convívio com os presos de alta periculosidade aliado à falta de um programa que ressocialize o detento faria com que o ladrão “comum” cedesse aos encantos de uma vida criminosa de alto padrão. Logo, o mais importante seria que se criasse mecanismos que reeducassem esse detento ao convívio social, fazendo com que o mesmo optasse por uma vida longe dos crimes. No outro extremo dessa linha está aqueles que defendem que preso é preso e ponto final. Se eles estão lá, é porque fizeram por merecer. Não chegam ao extremo de defender que se deveria trancá-los e deixá-los à própria sorte, sugestão do “Coronel Nascimento”. Porém é uma situação no mínimo indignante vermos que em algumas penitenciárias os com finados têm regalias tipo spa’s, oficinas onde a cada três dias trabalhados é reduzido um dia de sua pena e oficinas de capacitação de mão-de-obra. Como dizer à família que teve uma perda irreparável, que o seu algoz tem recebido benefícios como esses? Benefícios tais que às vezes nos trazem a sensação de que é mais vantagem estar preso do que solto (crianças, desconsiderem isso).
Tendo por base esse pano de fundo ressurge a questão, mas dessa vez levando em conta o caráter da realidade brasileira: Afinal, qual a função social do presídio: ressocializar o detento ou puni-lo? Ressocializar? Ora, o processo de ressocialização passa pela a idéia de reeducação, e reeducar passa pela idéia de informar. Então por que não termos televisão em casa sela? Afinal, bem ou mal, a televisão ainda é o maior meio de informação do país. Ah, a função é de punir! ? Certo, então por que não adotarmos o sistema de prisão perpétua? Exclui-se a pena de 30 anos e vamos para o sistema prisão vitalícia e ainda ampliaremos a quantidade de solitárias. Aliado a isso, vamos cortar o banho de sol e reduzir a quantidade de visitas para apenas uma por mês, evitando assim, a completa animalização.
É de conhecimento popular o ditado que reza que “prevenir é melhor do que remediar”, e hoje se sabe que um detento custa ao Estado nada menos que dez vezes mais caro que um aluno. Por essa óptica, seria imensamente mais vantajoso vigiar (ressocializar) do que punir. O Estado agiria em duas frentes de investida: uma na educação de base, onde teria a função de trazer uma educação onde o aprendiz teria qualificação necessária para pleno desenvolvimento de carreira. A segunda frente seria nos presídios, com iniciativas que permitissem ao preso se readequar à sociedade se utilizando de mecanismos como oficinas de capacitação e complementação do ensino básico. No entanto isso não faria com que extinguisse a criminalidade. O crime, como já adiantara Durkheim, nunca deixará de existir. Mais: em certa medida ele é útil (isso mesmo, útil) à sociedade. Então o que fazer com os detentos que não se ressocializaram e aqueles praticantes de crimes hediondos? Deveria, então, o sistema penitenciário ter as duas funções? Saciaríamos o problema do que fazer com ex-presidiários que não conseguem empregos e voltam à vida criminosa, assim como ficaríamos, também, com o sentimento de justiça tão esquecido nos dias de hoje. Há acuse de estar sendo bem funcionalista, entretanto, uma instituição tal qual uma penitenciária é uma autarquia funcionalista e como tal, tem na execução do seu papel social a sua excelência. Vigiar ou punir? Os dois!!!

Em tempo, peço perdão aos caros leitores pelo texto mea-boca. É meio como aquele jogador que estava em férias e precisa retomar o ritmo dá coisa. É que a pressão para postagem de um texto estava imensa não é mesmo..., ANDRÉ?!?!

O Respeito Mútuo


Por André Andrade
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Dando prosseguimento à problemática extraída da conclusão do texto anterior, trataremos agora desta delicada questão que é o respeito mútuo. Usando somente a palavra respeito, estaremos individualizando as ações humanas que se relacionam socialmente com outros seres humanos. Destarte, para que as pessoas ajam com respeito uma com as outras, é preciso que haja reciprocidade dos gestos de apreço que se estará imprimindo ao próximo. A mutualidade é que irá reforçar nossa motivação de agir respeitosamente com os outros.
As premissas dessa “lei” moral se desdobram em diversas formas: a violência gera violência, não deseje ao próximo o que você não quer para si, que advém da máxima muito usada pelo pensador inglês Thomas Hobbes, não faça ao próximo aquilo que você não gostaria que fizessem consigo. Tudo isso se traduz em que toda ação ofensiva que lançamos ao próximo tira de nós o direito de ser respeitado. E esses fundamentos são claramente observáveis desde a antiguidade como nos é representado pela Lei do talião, a base do código de Hamurabi, antigo rei babilônico. O olho por olho, dente por dente não nos passa a idéia somente de que os crimes cometidos pelas pessoas serão devolvidos da mesma forma como punição de seus atos. Quer acima de tudo evidenciar que o que é façamos de pior ao próximo será refletido para nós, de modo que assim se experimente o dissabor que nossa ação causou a outrem, ou seja, sintamos na pele. É o famoso ditado “o feitiço virou contra o feiticeiro” transformado numa lei jurídica. 
Contudo, o que nos impele a respeitar o nosso próximo? Como respeitar convicções contrárias a nossas?  Qual a garantia que temos de que nossas crenças serão respeitadas pelos outros assim como respeitamos as deles? E, qual o nosso interesse em respeitar as crenças alheias as nossas?
Opa, esta última reflexão-problema-pergunta deflagrou o que estava implícito nesta discussão acerca do respeito mútuo. Se concordarmos com a afirmação da última frase do primeiro parágrafo, devemos esclarecer nossa intencionalidade quanto à reciprocidade dos gestos condescendentes. Respeitamos os outros para que nos respeitem ou respeitamos porque é certo? A primeira assertiva denota o sentido de interesse, de que queremos em troca o respeito depositado a outrem, logo, estamos visando o eu, e não o nós. Já a segunda dá a intenção de gesto voluntário, ou seja, respeitar a outrem sem olhar a quem. É o embate da Utilidade fútil x Voluntarismo útil.
Para levarmos adiante as dúvidas exprimidas anteriormente, devemos levar em conta tais considerações. É lógico que nos sentiremos muito mais confortáveis de respeitarmos as convicções alheias às nossas se as nossas forem respeitadas. Entretanto, esta prerrogativa será lançada as favas (2ª vez que uso esse jargão..) quando as nossas crenças forem insultadas, caso sigamos o princípio utilitarista. É por isso que disse que a mutualidade é um REFORÇO, e não a força maior que gera a motivação do respeito recíproco.
O ser humano é um animal muito maleável (e tem gente que se sente insultado ao ser chamado de animal, pois o que nos diferencia dos outros bichos é o que nos deixa maleável). Por mais que ajamos de forma voluntária, nada nos garante que, ao sermos ofendidos, não acionemos o lado utilitarista e defendamos as nossas crenças colocando-as superiores às do ofensor. A fagulha de todos os conflitos se encontra nessa flexibilidade que traz a possibilidade de escolher ser útil ou voluntário quanto aos nossos gestos e ações.
Com isso, não direi que somos maus ou bons – direi que o mundo nos ensina a sermos utilitaristas, a responder da forma conforme somos atendidos. E que nossos valores (de todas as crenças e costumes) devem nos ensinar a sermos voluntários, para que nos reconheçamos nas outras crenças alheias as nossas, e aprendamos que nenhuma tem o direito de reclamar superioridade em detrimento de outras, pois todas trazem consigo suas verdades que são a ânsia do ser humano pela busca de verdades que não são certezas. Enfim, o respeito mútuo não vem de berço, provém da estima, conhecimento, educação.